Fatos Históricos

Casa onde surgiu a Umbanda de Zélio de Moraes está sendo demolida

Manchete do Jornal Extra de domingo, dia 02/10/2011, com a última foto da casa onde foi fundada a Umbanda antes dela ser demolida.

A estrutura metálica já está pronta para receber o telhado do novo galpão que vai ocupar o número 30 da Rua Floriano Peixoto, em Neves, São Gonçalo. Dentro do terreno, uma casinha centenária aguarda a demolição marcada, segundo o proprietário, ainda para esta semana. Poderia ser uma simples obra, não fosse um detalhe: a casa rosa, com a pintura já castigada pelos anos, é a última testemunha do nascimento da umbanda.
Foi no imóvel — que ocupava o centro de uma chácara, no início do século 20 —, que Zélio Fernandino de Moraes, então com 17 anos, dirigiu a primeira sessão da religião. Era 16 de novembro de 1908. A umbanda é a única manifestação religiosa 100% brasileira.
— A demolição nos deixa muito decepcionados, pois perdemos uma referência da chegada da mensagem do Caboclo das Sete Encruzilhadas — diz Pedro Miranda, presidente da União Espiritista de Umbanda do Brasil, em referência à entidade que orientou Zélio a fundar a religião.
Espíritos tristes
A notícia também surpeendeu a mãe de santo Lucília Guimarães, do terreiro do Pai Maneco, em Curitiba, Paraná. Na década de 1990, ela veio ao Rio para pesquisar as origens da religião.
— Imagino que até os espíritos estejam tristes. É uma pena — lamenta ela.
Há mais de cem anos com a família de Zélio, o imóvel onde surgiu a umbanda foi vendido recentemente para o militar Wanderley da Silva, de 65 anos, que pretende transformar o local em um depósito e uma loja.
— Eu nunca soube que a casa tinha essa história. Mas agora já comprei, investi, não posso deixar de demolir — explica-se.
Segundo o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), nunca houve um pedido de tombamento do imóvel. A antiga casa de Zélio também não é protegida pelo governo estadual ou pela Prefeitura de São Gonçalo.
De acordo com a última avaliação do IBGE, feita no Censo 2000, o Brasil tem quase 400 mil umbandistas. A religião está em todos os estados do país e também no Uruguai, Paraguai, Argentina, Portugal, Espanha e Japão.
‘Tudo acabou’
O terreiro de Zélio de Moraes — que recebeu o nome de Tenda Espírita Nossa Senhora da Piedade — funcionou por pouco anos em São Gonçalo. Os primeiros umbandistas mudaram-se logo para o Rio de Janeiro.
Primeiro, o centro funcionou na Rua Borja Castro, na Praça Quinze. A rua foi extinta, na década de 1950, para a construção da Perimetral. Dali, foram para a Avenida Presidente Vargas. O imóvel também foi demolido, dessa vez para dar lugar ao Terminal Rodoviário da Central do Brasil.
Uma nova mudança e mais uma demolição. A casa 59 da Rua Dom Gerardo, em frente ao mosteiro de São Bento, virou um estacionamento.
— Tudo acabou, eram prédios muito antigos. Lamento que o último registro também vai desaparecer. Mas o mais importante é que os ensinamentos do meu avô se perpetuem — pediu a neta de Zélio, Lygia Cunha, que hoje preside a Tenda Espírita Nossa Senhora da Piedade. O terreiro agora funciona em uma sede própria, em Cachoeiras de Macacu, no interior do estado.
Capela de São Pedro
Antes de ser vendida, a casa onde nasceu a Umbanda abrigou uma capela católica. A última moradora do imóvel, uma descendente de Zélio que é muito católica, cedeu o espaço para os devotos. Quem administra a igrejinha — que também mudou de endereço — é dona Geraldina dos Santos, de 74 anos.
— Não tenho preconceito, não. Todos somos filhos de Deus. Se a religião nasceu lá, a casa devia ser preservada. É importante — disse.

Primeiro Centro de Umbanda do RS

Em uma breve pesquisa sobre o primeiro centro de Umbanda do RS, que até onde se sabe foi fundado pelo Irmão Otacílio Charão, na cidade de Rio Grande_RS, encontrei o seguinte material no blog Registros de Umbanda , o qual reproduzo aqui:

Otacílio Charão era natural da cidade de Santa Maria, no Rio Grande do Sul, tendo ingressado, por volta de 1916, na Marinha Mercante.

Em 1926, Otacílio Charão abandona a carreira na Marinha Mercante e retorna ao Rio Grande do Sul, estabelecendo-se na cidade de Rio Grande, onde abriu uma fábrica de doces e balas.Ainda em 1926, Otacílio fundou o Centro Espírita Reino de São Jorge, que é, até o presente momento, a mais antiga tenda de Umbanda fundada no Rio Grande do Sul, tendo sido registrado em cartório em 1932.É bem provável que Otacílio Charão tenha vindo ao Rio de Janeiro, então capital federal, durante o seu período na Marinha Mercante, mas até agora ainda não consegui provar isso, muito menos que ele tenha frequentado a TENSP, a Tenda Espírita Nossa Senhora da Conceição, a Tenda Espírita Mirim ou alguma macumba carioca.Apesar disso, pelas características do Centro Espírita Reino de São Jorge, é provável que ele tenha tido contato com a Tenda Espírita Mirim, mas isso é até o momento pura especulação minha. Vejamos, então, como eram as características do CERSJ.De sua origem até meados da década de 1970, o CERSJ seguia uma doutrina de Umbanda de Mesa Branca, com as seguintes características:era proibida a utilização de quaisquer instrumentos de percussão;os cantos só podiam ser acompanhados com o bater de palmas e/ou o pé no chão;era autorizada a incorporação de apenas dois Exus, no caso as entidades Exu Tiriri e Exu de Manegum;era proibido o uso de guias ou colares ritualísticos;todos os trabalhos tinham início as 20:00 horas e encerravam-se à meia noite;pessoas separadas ou divorciadas eram proibidas de fazerem parte do quadro de sócios ou de participarem na corrente de trabalhos mediúnicos.O uniforme adotado pelo CERSJ da sua fundação até meados da década de 1970 era:para os homens: uma camisa branca contendo um distintivo formado por um ponto riscado e o nome do CERSJ logo acima deste; calça branca; cinto branco; meia branca e sapato de pano e flanela feito por alguns membros do CERSJ;para as mulheres: vestido branco contendo um distintivo formado por um ponto riscado e o nome do CERSJ logo acima deste, com decote fechado e comprimento até cinco dedos abaixo do joelho; bombachinha (espécie de calça curta gaúcha) de tergal branco até debaixo do joelho; meia branca; sapato de pano e flanela feito por alguns membros do CERSJ;para os meninos, que só eram permitidos na corrente por motivos de saúde: camisa azul, calça branca, um cordão amarrado na cintura e sapatos iguais ao dos homens;para as meninas, que só eram permitidas na corrente por motivos de saúde: blusa rosa, vestido branco abaixo do joelho, um cordão amarrado na cintura e sapatos iguais ao da corrente, se fossem meninas.Além dessas características, o senhor Sílvio me informou que o CERSJ possui, desde a sua fundação, uma mensalidade utilizada para cobrir seus gastos, estando isento do pagamento da mesma todos os sócios carentes ou que se encontram em dificuldades financeiras.No caso da existência de algum sócio nessa condição, era feito um levantamento para descobrir os motivos do fato e, verificada sua autenticidade, os demais sócios eram concitados a ajudar a família necessitada com doações financeiras, de alimentos, roupas e/ou medicamentos.Em seus primórdios, o CERSJ não possuía uma sede própria para realizar suas reuniões, utilizando, para tal, a residência de um de seus membros a cada final de semana. Essa situação não perdurou por muito tempo, pois ainda em 1926 foi adquirido o imóvel que serve até hoje como sua sede, o qual está situado na Rua General Abreu nº 497, Cidade Nova, Rio Grande, RS.Na década de 1960, o senhor Jesus Penna Rey doou a construção da atual parte da frente da sede do CERSJ, o qual foi utilizado inicialmente para abrigar uma escola primária que funcionava em convênio com a Prefeitura Municipal da Cidade de Rio Grande, com esta cedendo a professora e aquele, o espaço físico e as carteiras escolares. Tal escola funcionou até a reforma do sistema de ensino municipal.

Quem quiser saber mais sobre a primeira tenda fundada aqui no Rio Grande do Sul, acesse Registros de Umbanda   , blog que foi fonte desta postagem e dispõe de vasto material histórico Umbandista.

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